MENEZES BASTOS, Para uma Antropologia Histórica das Relações Musicais Brasil/Portugal/África: O Caso do Fado e de sua Pertinência ao Sistema de Transformações Lundu-Modinha-Fado
SARKISSIAN, Playing Portuguese: Constructing Identity in Malaysia's Portuguese Community
SIEBER, Composing Lusophonia: Multiculturalism and National Identity in Lisbon's 1998 Musical Scene
NOTE: I HAVE ALSO POSTED MY REFLECTION IN THE PUBLIC FOLDER. I SOMEHOW THINK IT IS CLEARER FOR READING AND DISCUSSION.
ResponderEliminarHere goes Part 1 of that reflection ...
These three authors offer different approaches to lusofonia. They hint at the construction of a lusophone model with different parameters according to the context of use. In my opinion, this reflects a process of categorization which selectively uses different cultural fragments and then reconstructs them into a new whole, which gains in symbolical meaning.
The process of selection or categorization seems to be essential to the concept of lusofonia, as well as to the perception of lusophone musics. Categorization, as a social process, informs musical experience. Social categories are “labels applied to expressive culture that are socially constructed through discourse” (Sparling 2008: 409). As such, “ they move around as people constantly define, redefine, and manipulate them in particular contexts for specific ends” (Guest-Scott 2008: 454). As Guilbault (1997a: sp) puts it, labels are used “as a device to produce statements, not only about musical values and practices, but also about social and political orientation, ethnic identity, economic situation, music industry, historical conjunctures as well as historical connections”. It is through discourse that particular features emerge as significant.
Menezes Bastos (in a difficult style of writing - full of insertions) in this sense discusses the system of historical and structural transformations in lundu-modinha-fado to understand the musical relations in the lusophone Atlantic in the 18th and 19th century. Bastos theoretically underbuilds the concept of ‘musical genre’ with rather dated definitions of discourse (Bakhtin) and transformation (Lévi-Strauss, Sahlins). He aims to design an interpretative model of hypotheses to link communicating and similar cultural realities –‘expressões diversificadas de um mesmo fenômeno’ such as tango, samba, fado - across the borders of the nation-state. Interesting is the fact that “somente a partir de em torno de 1870 o termo fado, rotulando um gênero musical, passou a ser usado em Portugal.” However, “a ausência de rótulo não implica necessariamente na não existência de um gênero de discurso.” Essencial in this respect is Bastos discussion of his concept “inconclusão substantiva” that points to musical genres in process.
... and Part 2
ResponderEliminarIn her contribution on Constructing Identity in Malaysia’s Portuguese Community, Sarkissian shows similar lines of categoric instability. She wonders how much of ‘authentic’ Portugueseness is there still in the small fishermans village on the outskirts of Malacca, where one is ‘playing to be Portuguese’? Sarkissian analyses the issue of categorization through the community’s performing tradition. She argues that, next to language and faith, it is through music dance and costume that these people present themselves to the world as Portuguese descendants and position themselves withing the nation. However, this has sometimes more to do with the actual context than with the historical connections to Portugal or its diaspora, depending on local cultural ideamakers and entrepreneurs. Sarkissian pinpoints a fluid identity narrative, in which “colonial connections are repeatedly reappropriated in vastly divergent postcolonial contexts.” Likewise, the idea of authenticity is fluid - instead, any understanding of the term is higly localized. I found it difficult to separate these two ideas. In sum, local lusofonia in Malacca is about stressing difference or sameness according to the social climate, for societal and political gain, thus modifying the construction of authenticity over time. This leads to a sort of imagined, floating identity, viewable form different angles and connections. The refered ‘cultural tourism’ reminds me of the Festival de Lusofonia in the not-to-distant Macau, as a kind of selective folklorization.
Sieber’s Composing Lusophonia, finally, again refers to the process of discursive categorization. He shows that Expo ’98 strongly emphasized Portugal’s European credentials by “evoking memories of older imperial hegemonies and affirming essentialized notions of a bounded national culture”, but at the same time excluded local migrant expressions – a process that, as can be concluded from my own research, is still ongoing today. Sieber suggests that lusofonia can be viewed as a elitist kind of cosmopolitanism with an historical stamp, making the difference between lusofonia and Portugueseness questionable. His argument is that in Portugal, “at home is not defined as lusophone”, which correlates with a “strong aversion of multicultural definitions of Portuguese national culture that cast it as a creole or hybrid product”. Sieber rightly points at hegemonic relations between Portuguese and wider lusophone musics that are “sharply separate, hierachized musics”. I find his threefold distinction extremely valuable: “The non-European lusophone musics are exoticized and essentialized; lusophone musics are viewed as supportive and somewhat derivative of Portuguese forms; and Portuguese forms never reference or emphasize any of their own borrowing form non-Portuguese.” Equally telling is the othering lusophone artists in Portugal “by concealing their European links and maintaining the fiction that their music is form elsewhere”. Expo ’98 first month sample is more than telling: 110 Portuguese groups versus 35 form the former colonies, of which 24 from Brazil. This sort of cultural racism is appalling and telling at the same time. One might wonder who were the gatekeepers in this process and also what was the resistance that they met. The phonogram Red hot + Lisbon, finally, hints at the artificialness of constructs such as lusofonia, making Lisbon more into an imaginary than a physical or social place for actual lusofonia.
References:
-GUEST-SCOTT, Anthony (2008), “Categories in motion: the use of generic multiplicity in music store guitar lessons”, Ethnomusicology 52 (3)
-GUILBAULT, Jocelyn (1997a), “The politics of labeling popular Music in English Caribbean”, Trans, 3. Available online at http://www.sibetrans.com/trans/trans3/guilbault.htm
-SPARLING, Heather (2008), “Categorically speaking: towards a theory of (musical) genre in Cape Breton Gaelic culture”, Ethnomusicology, 52 (3)
Os tres autores fazem abordagens diferentes da lusofonia.Menezes Bastos discute as transformações históricas e esturturais no lundu, modinha e fado a partir das relações musicais lusófonas. Sarkissan discute em seu texto a categorização da tradição na realização da comunidade através do portuguismo que ainda há na pequena vila nos arredores da Malaca. Sieber apresenta a seleção e categorização como exenciais para a lusofonia
ResponderEliminarO texto de Bastos vem a confirmar um conjunto de proposições que temos vindo a debater acerca das relações musicais, e não só, que envolvem os países lusófonos. Estas relações inserem-se num conjunto de trocas culturais de regime mais vasto, que envolve por exemplo a religião, a gastronomia, a literatura, formas de estar e ser, cuja matriz não é possível precisar com exactidão. É prática corrente por vezes entre os investigadores e as pessoas da sociedade em geral, tentar elucidar, por exemplo no caso brasileiro, de onde se originaram certas influências presentes na cultura brasileira e o ponto da historia em que se tornaram prática corrente, se em África, Portugal ou na cultura indígena local. Contudo essa prática revela-se tarefa inglória, despropositada por vezes e imprecisa sobretudo visto que na maioria dos casos os dados disponíveis não possibilitam auferir explicações normativas e tão pouco se consegue perceber o que é legado de uma outra cultura. O que se pode dizer certamente, e nesse ponto concordamos com Bastos, é que “as relações musicais aí incluídas estão assentadas na existência de um vasto sistema transatlântico de géneros musicais.”
ResponderEliminarNa cultura brasileira em geral, houve sempre momentos de aproximação e rejeição a cultura portuguesa na sua matriz colonial, por vezes professando um anti-lusitanismo militante por parte das elites republicanas, sobretudo em finais do período colonial por razões que claramente subentendem-se. Contudo essa relação de rejeição foi sempre ambígua uma vez que o pensamento relacionado ao eugenismo no Brasil pregava a “ contaminação genética” na matriz racial brasileira e sua possível “purificação” por via da hibridização com o emigrante europeu, em que se incluía a população portuguesa. Essa forma de “sujeira racial” com o negro e o índio possuía implicações culturais na percepção de que os mesmos constituíam um entrave a construção da desejada nação de “ ordem e progresso” como afirmava o emblema positivista da bandeira brasileira. Esta forma de pensar as relações sociais a partir do “determinismo racial” impregnou de certa forma também as camadas populares, que por vezes buscavam obsessivamente nas suas ascendências familiares ancestrais brancos europeus, como forma de status e diferenciação social. Assim activar uma certa lusitanidade tornava-se um instrumento útil nas relações raciais no Brasil. Recordo o trabalho de Leal, citado em uma das nossas leituras e que nos fala dos “açorianos” no sul do Brasil e também os textos de Almeida sobre a identidade portuguesa em trinidad Tobago, ambos com enfoques muito próximos dos que relatei acima. Penso que o exemplo que nos traz Sarkissian encerra alguma proximidade com os demais sobretudo no enfoque da reinvenção das identidades como forma de diferenciação social.
ResponderEliminarO texto de Sieber’s vem na sequência de outros autores que estudamos como Manuela Ribeiro Sanches e Almeida que percepcionam a lusofonia como uma reconstrução de um espaço neo-colonial, ainda que esta proposição esteja por vezes explícita ou implícita. Uma vez mais reedita-se o fantasma colonial encarnado na visão luso-tropical de Gilberto Freire. Chamo atenção para a ênfase dada pelo autor no período na Expo 98. Quem recorda este período em Portugal, particularmente em Lisboa, lembrará da euforia que o evento constituiu tendo sido marcante no cenário cultural nacional. Lembro que tratava-se de uma zona degrada da cidade de Lisboa que foi reabilitada e que renasceu como emblema de uma nova portugalidade, renovada, europeia, empreendedora, globalizada e liberta da herança pré 25 de Abril. O intrépido visitante poderia, em posse de uma passaporte simbólico, percorrer todos os pavilhões dos países e carimbar simbolicamente o passaporte, como se estivesse visitado de facto, sem sair de Portugal, vários países e culturas. Recordo que a sensação era boa, eu mesmo fiz esse percurso e senti-me uma criança a brincar na Disneylandia.
ResponderEliminarMenezes Bastos apresenta a sua investigação com uma linguagem confusa- eu diria má. O artigo está mal escrito, o que não facilita o entendimento da sua proposta, também no meu entender confusa. No que diz respeito à temática central que, de acordo com o seu autor, se trata do estudo do "sistema de transformações histórico-estruturais lundu-modinha-fado"(apetece comentar...whatever that means..., não comento, pois o meu conhecimento sobre estes géneros musicais é parco. Porém, é sobre questões mais generalizadas-como a distinção que faz entre género musical e rótulo (?), afirmando que um pode existir sem o outro- no caso, o género sem o rótulo...-ou a sua definição de música popular, que considera afastada do fonograma enquanto parte constituinte, considerando-o apenas (ao fonograma) como um veículo da música- que o seu artigo se torna polémico. De facto, o termo popular music é algo que vem dos Popular Music Studies e, dentro dessa perspectiva, traz consigo algumas conotações que Menezes Bastos parece esquecer: a sua mediatização, a sua raíz anglófona e a sua difícil tradução para outras línguas. Assim, convém não confundir popular music com música popular-aquela que Menezes Bastos refere e explicita.
ResponderEliminarAo contrário, Sarkissian apresenta um interessante estudo de caso de negociação de identidade dentro de um território onde as relações com Portugal assumiram valores diferentes de acordo com o contexto histórico. Muito claramente exposto, o artigo expõe a fluidez dos conceitos de identidade duma forma muito pragmática e facilmente perceptível.
ResponderEliminarQuanto ao artigo de Sieber, que problematiza o conceito de Lusufonia, parece-me extremamente exagerado, forçando um ponto de vista que dificilmente se enquadra no país de que fala e no qual vivo há mais de cinquenta anos. De facto, a afirmação segundo a qual "o discurso lusófono corrente limita-se a tentar dissimular-mas não eliminar-os traços brutais do passado", tentando "recuperar uma parte da hegemonia portuguesa antiga", mantendo o "domínio colonial" é excessiva, sobretudo tomando como terreno de investigação a Expo 98, um acontecimento político-cultural com características muito específicas. Deste acontecimento-altamente contestado por vários sectores da sociedade portuguesa, mas depois acarinhado por praticamente toda a população-, extrapolar conclusões sobre Portugal enquanto nação neo-colonialista disfarçada é injusto. Estive nas Expo e vi espectáculos onde artistas do PALOP (para evitar o termo Lusofonia, ao qual voltarei)partilharam palco com artistas portugueses de primeira linha e a presença de artistas brasileiros, foi-como sempre é, em Portugal desde que me conheço- muito evidente. Para finalizar o meu comentário, o conceito de Lusofonia não deixa de ser uma abstracção, uma invenção com objectivos primeiramente comerciais de abertura ou, se quisermos, recuperação de possíveis mercados. Por isso, utilizá-lo como ponto de partida para conclusões mais vastas- e num terreno de investigação bastante circunscrito-não será, talvez, a forma mais correcta de fazer ciência social.
ResponderEliminarO texto de Menezes Bastos oscila, em forma, entre o registo académico e o registo (exageradamente) cuidado, o que, a meu ver, – e concordando com a Isabel Campelo – dificulta uma leitura objectiva dos seus pontos de vista. Em conteúdo, o artigo pretende criar uma relação de génese e inter-influência entre três géneros musicais: lundu-modinha-fado que, no início de leitura, parece prometer uma abordagem de investigação musical interessante no âmbito das relações entre culturas lusófonas. Contudo, ao longo do artigo, o “modelo, de natureza histórico-antropológica”, adoptado pelo autor, parece sobrepor-se ao estudo desses mesmos géneros musicais e, mesmo, a uma definição-base de lusofonia que sirva de ponto de partida para o estudo.
ResponderEliminarA abordagem de três fenómenos musicais, dos seus nascimentos, dos seus processos de transformação e sedimentação até se tornarem em géneros musicais identitários de três expressões de lusofonia serve, aqui, como suporte para se observarem outros elementos (o político, o histórico, o social e o antropológico) na formação de uma noção de lusofonia que o autor nunca esclarece.
Sarkissian revela-nos um caso que vem abalar a noção de lusofonia que até aqui tínhamos, minimamente, como garantida. O facto de existir uma comunidade distante e alheada do projecto político de lusofonia, que pratica folclore português (ou de raiz portuguesa), cristalizado na memória de uma classe social, como afirmação social e política de diferença e de reivindicação de identidade cultural (e de terra), obriga-nos a questionar até que ponto o projecto político de lusofonia não é, de certa maneira, um mito (abundantemente abordado por diversos autores lidos neste seminário).
ResponderEliminarTanto a noção de pós-colonialismo enquanto manifestação de anti-colonialismo, de Boaventura Santos, como a noção de equívoco lusocêntrico no conceito de luso-tropicalismo, de Moisés de Lemos Martins, poderiam ser relidas à luz deste estudo de caso de Sarkissian.
Enquanto músico português que participou em concertos da programação da Expo 98, questiono de que Expo 98 fala, na realidade, Sieber? A Expo 98 pretendeu reunir músicos de várias latitudes e conseguiu-o. Se houve expressão de lusofonia, ela deu-se sobretudo pela afinidade natural que os próprios músicos e programadores portugueses têm para com os músicos brasileiros e africanos de expressão portuguesa e porque o que se entende por “músicos portugueses” é, na realidade, um conjunto de músicos, muitos deles brasileiros e africanos de expressão portuguesa, que trabalham em Portugal. Mas mais importante ainda: a lusofonia aconteceu (como julgo, por experiência própria, que continua a acontecer, na maioria dos casos) como forma de captação de um público que, precisamente a partir da prosperidade e estabilidade económica e política do Portugal de meados dos anos noventa, se torna eminentemente lusófono. Ou seja, o Portugal de 98 é um país que acolhe uma população considerável de cabo-verdianos, angolanos, moçambicanos e guineenses de segunda geração. O Portugal de 98 é um país que começa a receber uma vaga avultada e crescente de imigrantes brasileiros. O público da Expo 98 é, naturalmente, público da lusofonia - seja lusofonia um projecto político, uma expressão sincera e espontânea de encontro de culturas próximas pela língua e pela história, ou um produto.
ResponderEliminarSieber cataloga os palcos que se espalhavam pelo complexo da exposição apenas baseado nos subtítulos que os promotores lhes deram nas brochuras informativas (Palco 2 – jazz, Palco 3 – lusofonia, etc.), mas certamente não ouviu a música que aí se praticou, pois um dos desafios dos programadores lançados aos músicos foi o de quebrar estereótipos – participei na opereta “Cabaré Lisboa”, uma peça musical de tom burlesco, no Palco 6, que Sieber cataloga como palco para música pop e hip-hop portuguesa, por exemplo.
Choca-me, pessoalmente, a afirmação “At Expo 98, Portuguese music was constituted as strickly white”. Não entendo, sequer, o que o autor quer dizer.
Não compreendo como pode Sieber, depois de analisar – e bem – a concepção do álbum “Red Hot + Lisbon” numa escala global de produção e recepção do produto musical que pode ser a lusofonia, não entenda a Expo 98 numa mesma lógica adorniana.