segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Leitura #1: Santos: "Between Prospero and Caliban"

SANTOS, Boaventura de Sousa (2002), “Between Prospero and Caliban: Colonialism, Postcolonialism, and Inter-Identity.” Luso-Brazilian Review 2 (2002): 9-43

Vamos escrever as nossas reações à essa leitura aqui no blog.

5 comentários:

  1. Este artigo de Sousa Santos foca, essencialmente, o papel de Portugal enquanto país colonizador, atribuindo a este papel a responsabilidade de um cenário pós-colonial que considera de anti - colonial, "uma luta contra um passado presente"(Santos:37). Comparando a figura do colonizador com Próspero e a do colonizado com Caliban, Santos considera que o fracasso da descolonização portuguesa se deveu ao facto do Próspero português ter sido sempre um Próspero "calibanizado", na medida em que, também ele era colonizado e semi-periférico. Essa falta de padrão colonial deu origem ao que Santos considera um dos traços mais característicos da identidade portuguesa- o "oito-oitentismo". Achei o artigo interessante; porém, ao comparar negativamente o colonialismo português com outros colonialismos-nomeadamente, o inglês- questiono-me se esta posição não se aproxima perigosamente ao elogio da autoridade. Se o colonialismo português mostrou um déficit de autoridade qualitativa, o inglês foi melhor? Porquê?

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  2. In his article, de Sousa Santos offers an interesting, deconstructive approach to Portuguese postcolonialism and notions of lusofonia. He bases himself on the concept of inter-identities as original identity in defending a “situated postcolonialism”. Postcolonialism in this sense is delineated “as a set of (mainly performative) practices and discourses that deconstruct the colonial narrative as written by the colonizer, and try to replace it by narratives written from the point of view of the colonized.” The author resorts to “oppositional postcolonialism” to criticize “celebratory postmodernism”, using the concept of “frontier” to designate the displacement of discourse and practices from the center to the margins.

    By undoing the clear distinction between the identity of the colonizer and the identity of the colonized, postcolonial identity must be constructed in the margins of representation, and by a movement that goes from the margins to the center, de Sousa Santos argues. To this he adds that, in the Portuguese context, it could also be said that “to be assimilated is emphatically not to be Portuguese”. He in this sense argues that the identity of the Portuguese colonizer is doubly double: constituted by the conjunction of the colonized other, and the colonizer himself as a colonized other: “The Portuguese Prospero is not just a Calibanized Prospero; he is a very Caliban from the viewpoint of the European super-Prosperos.”

    To the mentioning of super-Prosperos, the name of Brazil should also be added. De Sousa Santos states that Brazil, since its independency, has played the role of “colonizing colony”. He argues that the “colonial weakness and incompetence of the Portuguese Prospero did not make neocolonialism possible, but by the same token it facilitated internal colonialism” - the reproduction of colonial relations after the end of colonialism. In this sense, the author induces a type of mimicry in that for the Brazilian elites (largely originating from Portugal) that took over power after independence, a difference emerged regarding historic responsibilities and how to share them with the former colonizer, Portugal, that would later be called “país irmão”.

    Reverting to the idea of Portugal’s ambivalent position as both colonizer and colonized, de Souza Santos points towards a reciprocity in terms of international relations within the Portuguese-speaking world at the time of the respective national independences, that affected and decolonized Prospero. The author signals as significant that independence, both of Brazil and the African countries, took place “in the context of important progressive political transformations in Lisbon: the liberal revolution of 1820 and the April revolution of 1974 and the end of the colonial wars, the recognition of the liberation movements and the independence of the colonies, and continues in the establishment of relations of cooperation with the new countries whose official language is Portuguese and the creation of the Community of Portuguese Language Countries (CPLP) in 1996.”

    This shared sense of liberation, and later cooperation, De Souza Santos argues, has constituted a certain complicity between the Portuguese political class and the political class of the new countries, particularly in the case of the PALOP, in that it stimulated a search for “new and more efficient form to reproduce domination in the recognition of independence.” It is my question in what sense and to which extent this explicit interpretation of lusofonia -politics and economy- has affected and influenced the implicit level of social dynamics (migration) and cultural transformations (hybridity). Does the (political) theory correspond to (social) practice? And what about music?

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  3. Isabel: a sua pergunta "Se o colonialismo português mostrou um déficit de autoridade qualitativa, o inglês foi melhor? Porquê?" é boa. Há um problema nesses argumentos para o exepcionalismo do colonialismo português como um colonialismo duma certa maneira inferior, que reproduz o discurso do colonizador dominante (no caso, Ingla Terra). Porém, como discutimos na aula semana passada, há o facto também dos inglêses serem quem escreveu a história do colonialismo (e que a teorização de pós-colonialismo tem sido na maioria pensado como contra o modelo inglês). É complicado, e temos que prestar atenção nessa dinâmico ao longo do semestre. Acho que o capítulo de Almeida, das novas leituras, fala também a esse aspecto.

    Bart: Excelente resumo dum artigo difícil. Acho que vale a pena nós pensarmos mais a ideia de que o sujeito colonizado pelo português é "doubly colonized." Também a questão de ambivalência, por ser colonizado e colonizador. Eu vejo isso muito -- numa outra forma -- nas classes médias brasileiras que, históricamente, se sentiam um pouco inferior ao europeu, mais superior ao "povo."
    A questão do papel de tendências progressivistas nisso tudo é interessante. Vejamos, p.e., no capítulo de Almeida, que o G. Freyre teve um lado bastante conservador, não é?
    Finalmente, o que isto tem a ver com "practice," no caso, musical practices, é a grande pergunta que nós vamos estudar.

    Há muito mais para se discutir nesse artigo de Sousa Santos. Que tal os outros participantes da cadeira tenham contribuição?

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  4. As leituras sobre esse artigo podem ser bastante variadas e por vezes ambíguas. Este facto deve-se a complexidade das questões que o autor levanta e a dificuldade em dar respostas objectivas que atendam a profundidade do assunto. O cerne do tema prende-se, como nos diz Sousa Santos, com o processo identitário que tem ocorrido no espaço-tempo da língua portuguesa que actualmente chamamos de lusofonia.
    O autor formula um conjunto de hipóteses que relevam sobretudo a condição semi-periférica em que Portugal se encontra desde o século XVII, tendo afectado a sua actuação colonial e vindo a reproduzir-se até mesmo na entrada na União Europeia. Ao desenvolver seus argumentos Sousa traz duas questões que nos parecem centrais no debate actual do que convencionamos chamar de “culturas lusófonas”. A primeira delas prende-se com o facto do autor compreender que o fim do colonialismo não determinou o fim do poder colonial, nem nas colónias nem na sua antiga metrópole. A segunda questão versa sobre uma visão de vácuo que Sousa Santos apresenta sobre a identidade portuguesa, postulando-a como uma cultura de fronteira sem conteúdo nem forma.
    O primeiro aspecto que relevo como valioso é o processo de desmontagem do conceito de identidade, portuguesa ou lusófona se quisermos, realizada pelo autor. Somos levados a admitir que há algum incómodo com o uso do conceito de identidade que justifica alguma prudência, uma vez que a sua apropriação inadvertida nos discursos da identidade poderá reproduzir, ampliar e legitimar possíveis efeitos sociológicos indesejáveis. O primeiro destes efeitos prende-se com a absolutização das identidades, sendo que elas são relativas e relacionais. O segundo consiste em tipificar uma identidade e vinculá-la a uma vocação determinada e ancorando-a numa essência ficcionada.
    Lembramos que o conceito de lusofonia nasceu impregnado de conteúdo político, de uma narrativa identitária que nos faz lembrar o Luso-tropicalismo de Gilberto Freire e as suas formas de legitimação colonial. Falar de lusofonia no âmbito da cultura é, sobretudo, unificar, empacotar no mesmo molde, um conjunto de culturas muito diversas, cuja grandiosidade da sua apreensão não pode realizar-se centrando-se na ênfase das qualidades que as aproximam, ou o que tem em comum em sua história e construção, mas sobretudo pelo que as singulariza. Isso não invalida uma abordagem baseada no trânsito atlântico destas culturas, feita no passado, por ironia, pelo tráfico de escravos. Contudo, esta abordagem será redutora para explicar o que elas no presente tornaram-se.

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  5. Beyond Postcolonialism: Opositional Postmodernism.

    Quisiera ofrecer algunas imágenes que no puedo evitar ver una y otra vez al leer las palabras "frontera, barroco y sur", propuestas todas por De Sousa Santos como cimiento y alimento de las utopías emancipatorias de su "postmodernismo oposicional" (15).

    Vemos por ejemplo la primera imagen (imagenesfronterizas.blogspot.com), metáfora visual de la fenomenología de la marginalidad de la frontera: "based on the selective and instrumental use of traditions; on the invention of new forms of sociability; on weak hierarchies; on the plurality of juridical powers and orders; on the fluidity of social relations; on the promiscuity between strangers and intimates, between inheritance and invention" (15-16). Veamos ahora las tres imágenes restantes y pensemos en la extremosidad (16) del barroco de Sousa Santos y en su uso de la palabra Sur como significante de, por un lado, "the size and multifaceted character of opression in contemporary societies", y por el otro de "the capacity for creation, innovation, and resistance of the oppressed peoples once they were liberated from their condition of victims*" (16).

    Las tres imágenes escogidas pertencen a un proyecto en particular, desarrolado por el arquitecto guatemalteco Teddy Cruz en los barrios fronterizos de Tijuana y San Diego, en México y los Estados Unidos respectivamente. La idea de Cruz es aprender de la proximidad urbanística de los barrios de invasión, de su uso vertical del espacio horizontal; de las multiples capas, intersecciones, y comunicaciones que estos construyen, maximizando el uso del espacio y creando un gran número de espacios híbridos público/privados, para uso familiar/comercial, todo de forma simultánea y multitemporal.

    La construcción presentada en las imágenes dos, tres y cuato, nace (1) del aprendizaje del arquitecto de imágenes como la uno, no solo en cuanto su aspecto estructural sino también en cuanto al orígen de los materiales (desechos importados de EEUU) con los que su estructura ha sido fabricada, y (2) en oposición al modelo urbanístico propuesto por los suburvios y las "gated communities" estadounidenses.
    Cruz, podríamos decir, recorre así las tres direcciones de la epistemología del Sur propuesta por De Sousa Santos como una vía para una posible emancipación. Cruz, su proyecto y su punto de partida/aprendizaje/inspiración, sin embargo, nos recuerdan que a diferencia de lo que afirma de Sousa Santos* "the capacity for creation, innovation, and resistance of the oppressed peoples" no ha esperado y se ha anticipado a su liberación "from their condition of victims" (16).

    Estas imágenes, cro yo, estos proyectos urbanísticos barrocos a lo De Sousa Santos, fronterizos a lo De Sousa Santos, y sureños, pueden servir como metáforas visuales poderosas del postmodernismo oposicional con el que pensar en y responder a, las realidades sociales, políticas, económicas y culturales del espacio-tiempo del mundo (mundo, en sigular, como se hablaría de la casa, en singular, de la imagen uno) Lusófono.

    *ver asteriscos en párrafo cuatro y dos.

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