quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Leituras para 19 de Nov, Sanches, "Where is the Post-colonial?"; Almeida, "Tristes Luso-Tropiques"

2 comentários:

  1. A questão do pós colonialismo afeta profundamente a história portuguesa dado que o passado da nação esteve muito ligado à formação de colônias além-mar. Com o processo de descolonização ocorrido na primeira metade do século XX muitas das tradições e recortes da cultura portuguesa se perdem nos países que se tornaram independentes (ex-colonias) e a nação portuguesa recebe de volta, ao mesmo tempo, seus filhos que moravam em terras estrangeiras trazendo consigo muitas das tradições e costumes dos povos conquistados.

    Portugal é entendido por importantes figuras da literatura brasileira (namely Freire, Gilberto) como um país com identidades que se mesclam entre o Oriente e o Ocidente, metade europeu, metade árabe, metade cristão, metade muçulmano, e parcialmente também judeu.
    Para um povo assim, com tal natureza híbrida, a questão da identidade nacional assume um caráter de extrema complexidade, com diferentes significados em função do contexto em que se discute.
    A idéia de comunidade espalhada pelo mundo se transformou numa característica da cultura portuguesa com ênfase na migração entre os povos colonizados e colonizadores, de uma maneira que enfatiza conceitos tradicionais da cultura portuguesa como sendo um país dono de uma língua uniforme e tradições próprias.
    O texto também alude à constante necessidade de muitos estados nacionais, Portugal inclusive, apropriarem-se do sucesso de alguns de seus membros pertencentes a minorias raciais, como por exemplo no campo esportivo ocorreu com o jogador Eusébio, que fez sucesso no futebol defendendo as cores da seleção portuguesa mas pertencia a uma minoria negra profundamente ligada as tradições portuguesas ao mesmo tempo sofrendo de discriminações de lusófonos que se auto-denominavam “autênticos” guardiões da cultura portuguesa.

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  2. Começo por dizer que apesar das críticas que, a bom rigor e correcção, possam ser feiras a Gilberto Freire, não poderia deixar de destacar a riqueza da obra do autor, principalmente no livro Casa Grande e Senzala que ainda hoje decorridos vários anos de sua edição, continua sendo tema de debate fervoroso e cujos efeitos do discurso ainda faz-se sentir. Tão enfática foi sua obra que a ele foi atribuída a criação do mito da “democracia racial” no Brasil, um excepcionalismo que postula a terra brasilis como um paraíso racial engendrado pela fogosa sexualidade lusitana que não se furtava, ao contrário de outros colonizadores, em gerar híbridos.
    Uma das críticas mais bem urdidas a autor foi feita pelo também cientista sociais Roberto DaMatta. O autor argumenta que o mito criado por Gilberto Freire para explicar a fusão racial no Brasil designado por ele como a “fábula das três raças” ou “triângulo racial”, impede uma visão histórica da formação do Brasil enquanto sociedade, pois alimenta a ideia subjacente de que as matrizes culturais africanas, europeia e indígena “se encontraram de modo espontâneo, numa espécie de Carnaval social e biológico. Mas nada disso é verdade” .
    A obra de Freire que de alguma forma queria enfatizar o papel social da população mestiça no Brasil, acabou por, além de criar um mito indelével na maneira de ver as questões raciais no Brasil, servir de discurso legitimador da intervenção colonial portuguesa, que tardiamente teimava em desfazer-se dos territórios ultramarinos.
    Almeida destaca no discurso de Freire três elementos importantes que estão na base da construção do emblema luso-tropical. O primeiro deles são as condições geográficas e miscigenação original em que Portugal aparece como um ponto de encontro natural de rotas de navegação sendo que através de uma característica inata do seu povo tornar-se-ia fácil fundir diferentes matrizes culturais; O carácter expansionista como sendo uma vocação latente da nação e a plasticidade, como uma característica maneirosa dos portugueses de adaptarem-se a qualquer situação ou lugar em que se encontrem. Para além desse aspecto, Almeida alerta para as novas formas de reedição desse discurso facilmente assimilável e indica que “ o pós-luso-tropicalismo seria, assim, uma ultrapassagem que não esquece o que ultrapassou”.

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